Poucos textos bíblicos são tão conhecidos quanto o Salmo 91.
Mesmo quem não costuma ler a Bíblia provavelmente já ouviu alguma de suas frases:
“Mil cairão ao teu lado…”
“Aos seus anjos dará ordens a teu respeito…”
“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo…”
É um salmo que atravessou gerações. Está em quadros, em portas de casas, em mensagens enviadas quando alguém está com medo e nas orações feitas antes de uma viagem ou durante uma doença.
E é fácil entender o motivo.
O Salmo 91 fala sobre proteção.
Mas, quando lemos o texto inteiro, percebemos que ele não começa falando sobre aquilo de que Deus vai nos livrar.
Ele começa falando sobre onde estamos habitando.
“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.”
Talvez seja justamente aí que precisamos começar.
Salmo 91:1-2 Antes da proteção, existe uma morada
A primeira imagem do salmo é a de alguém que habita.
Não fala de visita.
Nem sobre quem aparece de vez em quando.
E sim Habitar.
Isso muda bastante a maneira como podemos ler esse texto.
É comum procurarmos nas escrituras como o Salmo 91 em momentos de emergência.
Quando sentimos medo, quando alguma coisa foge do nosso controle, quando alguém que amamos está enfrentando uma situação difícil.
Não há problema algum nisso. (Só precisamos tomar cuidado para não tratar o salmos 91 como se fosse um amuleto)
Mas o homem descrito no primeiro versículo não corre para Deus apenas quando surge o perigo.
Ele já estava ali, Deus se tornou sua morada.
O versículo seguinte deixa essa relação ainda mais pessoal:
“Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio.”
Nos dois primeiros versículos encontramos diferentes formas de se referir a Deus: Altíssimo, Onipotente, Senhor e Deus.
Mas, no meio de títulos tão grandiosos, existe uma palavra pequena que diz muito:
MEU.
Meu refúgio.
Minha fortaleza.
Meu Deus.
O salmista não está apenas dizendo que existe um Deus poderoso.
Ele está dizendo:
“Eu confio nesse Deus.”
Por isso, quando o texto fala em “habitar no esconderijo do Altíssimo”, não parece estar revelando uma oração secreta, uma técnica espiritual ou algum lugar físico especial, mas é o próprio Deus que é apresentado como o esconderijo.
Ao longo do salmo, várias imagens serão usadas para comunicar isso: esconderijo, sombra, refúgio, fortaleza, asas, escudo e morada.
Todas apontam para a mesma direção, a qual o salmista encontrou sua segurança em Deus, e talvez essa seja uma pergunta necessária para nós mesmos!
Quando alguma coisa sai do nosso controle, onde procuramos segurança?
Planejamento?
Dinheiro?
Pessoas?
Informação?
Nossa própria capacidade de resolver?
Nada disso é necessariamente errado. O problema aparece quando essas coisas ocupam um lugar que nunca foram capazes de sustentar.
Porque existem momentos em que planejamento não resolve.
Dinheiro não alcança.
Nossa inteligência não consegue explicar.
E nosso controle simplesmente acaba.
O Salmo 91 apresenta alguém que, diante disso, consegue dizer:
“Meu Deus, em quem confio.”
Não se trata de uma fonte alternativa de suporte ou de solução de problemas, mas literalmente a base da nossa confiança, onde sem Deus, nada é suficiente.
Salmo 91:3-8 O salmista conhece o mundo real
Depois dessa declaração de confiança, o salmo começa a falar sobre perigo.
“Porque ele te livrará do laço do passarinheiro e da peste perniciosa.”
A imagem do laço é interessante porque uma armadilha funciona justamente quando não é percebida.
Existem perigos que enxergamos chegando, e existem perigos que não conseguimos prever nem sequer imaginar!!.
Mas Deus já viu.
O Salmo 91 conhece os dois.
Logo depois aparecem doenças, terror durante a noite, flechas durante o dia, destruição e milhares caindo ao redor.
Nada disso parece a descrição de uma vida protegida dentro de uma bolha.
O salmista conhece um mundo em que coisas ruins acontecem.
Mas no meio dessas ameaças aparece uma imagem completamente diferente:
“Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas encontrarás refúgio.”
Até aqui, Deus foi chamado de fortaleza.
Agora Ele é apresentado como uma ave protegendo seus filhotes.
É uma imagem de cuidado.
O Deus Altíssimo não é apenas poderoso.
Ele também se aproxima.
Aquele que poderia ser descrito como fortaleza também pode ser descrito como alguém que acolhe debaixo de suas asas.
E o versículo continua:
“A sua fidelidade será o teu escudo.”
Aqui existe algo que considero importante, o salmista não diz:
“A força da sua fé será seu escudo.”
Ele diz que a fidelidade de Deus será.
Isso muda para onde olhamos, pois há dias em que nossa fé parece firme, já em outros, mal conseguimos organizar aquilo que estamos sentindo. Se nossa segurança dependesse da intensidade da nossa confiança, viveríamos constantemente medindo a nós mesmos.
O salmista aponta para fora.
A segurança está na fidelidade de Deus.
O terror da noite e a flecha do dia
Nos versículos seguintes, o texto parece percorrer todas as horas.
Existe o terror da noite.
A flecha durante o dia.
A peste na escuridão.
A destruição ao meio-dia.
Noite e dia.
Escuridão e luz.
Ameaças que percebemos e outras que sequer conseguimos enxergar, novamente a comparação só que agora através do tempo.
O salmista está descrevendo uma realidade em que o perigo pode surgir de todos os lados.
E, ainda assim, nenhum horário está fora do governo de Deus.
O texto não diz que não existe terror durante a noite.
Ele diz:
“Não temerás…”
A fé não exige que a pessoa finja que o perigo não existe.
Ela apenas se recusa a tratá-lo como se fosse maior do que Deus.
“Mil cairão ao teu lado”
Então aparece uma das declarações mais conhecidas do Salmo 91:
“Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido.”
Se retirarmos essa frase do restante das Escrituras, podemos facilmente ter uma conclusão que uma pessoa que realmente confia em Deus nunca sofrerá, porém está errado. Olha o que a bíblia nos conta:
José foi vendido pelos próprios irmãos.
Jó sofreu.
Davi precisou fugir.
Jeremias foi perseguido.
Paulo foi preso, espancado e naufragou.
Os apóstolos conheceram perseguição.
E Jesus foi crucificado.
Não podemos interpretar o Salmo 91 de maneira que o coloque contra todo o restante da Bíblia.
Isso não significa enfraquecer sua promessa.
Eu acredito que Deus livra. Acredito em sua providência.
Existem situações das quais talvez tenhamos sido preservados sem sequer perceber.
O que o texto não nos dá é uma fórmula segundo a qual a pessoa fiel se torna intocável.
A confiança do Salmo 91 está no governo de Deus, não em uma garantia de que conseguiremos controlar aquilo que Ele permitirá ou não em nossa caminhada.
E o próprio salmo vai explicar isso melhor no final.
Salmo 91:9-13 “Fizeste do Altíssimo a tua morada”
No versículo 9, encontramos novamente a ideia do começo:
“Porque fizeste do Senhor o teu refúgio e do Altíssimo a tua morada…”
Morada.
Não parece acidental que o salmo volte a essa palavra.
As promessas de proteção não estão soltas.
Elas pertencem à relação de alguém que encontrou em Deus seu lugar de confiança.
É nesse contexto que aparecem os conhecidos versículos sobre os anjos:
“Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos.”
O texto realmente fala sobre a atuação dos anjos.
Mas existe um detalhe simples que precisamos manter no lugar certo:
quem dá as ordens é Deus.
Não há aqui uma instrução para comandarmos anjos ou desenvolvermos algum tipo de prática espiritual em torno deles.
A proteção continua partindo do Senhor.
Deus ordena.
Ele governa.
Deus guarda.
Até aquilo que acontece fora daquilo que conseguimos enxergar permanece debaixo da autoridade dele.
E justamente esses versículos aparecem novamente no Novo Testamento.
Quando Satanás usa o Salmo 91 contra Jesus
Durante a tentação de Jesus, Satanás o leva ao ponto mais alto do templo e diz:
“Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo…”
Então ele cita o Salmo 91.
A promessa usada é justamente aquela sobre os anjos que guardariam e sustentariam aquele que confia em Deus.
O texto citado era verdadeiro.
A interpretação estava errada.
O Salmo 91 ensina:
confie em Deus quando o perigo chegar.
Satanás transforma isso em:
crie deliberadamente o perigo e obrigue Deus a provar que vai protegê-lo.
Jesus responde utilizando Deuteronômio:
“Não tentarás o Senhor teu Deus.”
Existe aqui uma aula de interpretação bíblica.
Satanás conhecia o versículo e o utilizou isoladamente para induzir ao erro.
Jesus conhecia as Escrituras e quebrou as tentativas de satanás de perverter as escrituras.
É possível citar uma passagem corretamente e, ainda assim, utilizá-la de uma maneira que contradiz aquilo que Deus quis comunicar.
Por isso contexto não é apenas uma preocupação acadêmica.
Nós não estudamos contexto para tornar a Bíblia complicada.
Estudamos porque queremos ouvir aquilo que Deus realmente disse, em vez de utilizar palavras bíblicas para confirmar aquilo que já decidimos acreditar.
A resposta de Jesus também mostra a diferença entre confiança e presunção.
Confiar em Deus é caminhar por aquilo que está diante de nós sabendo que Ele continua sendo Senhor.
Salmo 91:14-16 — Quando o próprio Deus responde
Nos últimos versículos, a voz muda ela sai do salmista.
Até aqui ouvimos alguém falando sobre Deus e sobre aquilo que Ele fará.
Agora é o próprio Senhor quem fala:
“Porque a mim se apegou com amor, eu o livrarei; eu o protegerei, porque conhece o meu nome.”
Depois:
“Ele me invocará, e eu lhe responderei.”
E então chegamos a uma frase que ajuda a colocar todas as outras promessas no lugar:
“Estarei com ele na angústia.”
Isso merece atenção.
Depois de um salmo inteiro falando sobre proteção, o próprio Deus reconhece a existência da angústia.
Ele não diz:
“Aquele que confia em mim nunca entrará nela.”
Ele diz:
“Eu estarei com ele.”
Isso nos impede de cair em dois extremos.
O primeiro é esvaziar completamente as promessas de proteção.
Deus livra.
Ele guarda.
Deus intervém.
O Salmo 91 afirma isso repetidamente.
Mas o outro extremo é acreditar que todo sofrimento representa necessariamente falta de fé ou ausência da proteção divina.
O próprio texto não permite essa conclusão.
Há momentos em que Deus nos livra da situação.
Há momentos em que Ele nos sustenta dentro dela.
Nos dois casos, Ele continua sendo nosso refúgio.
E talvez seja justamente aqui que conseguimos entender melhor aquilo que lemos no começo.
O homem do Salmo 91 não está seguro porque conseguiu eliminar toda possibilidade de sofrimento.
Ele está seguro porque fez do Altíssimo sua morada.
Além disso, vale apontar para aprofundarmos um pouco mais nesse tema, pois imagino que algumas pessoas possam pensar:
“Mas porque Deus me colocou nessa situação” ou até questionando se Ele é Deus porque essas coisas acontecem.
Tenho 2 coisas a dizer para você:
1 – As dores e sofrimentos vem proveniente do pecado, que adentrou por meio de Adão, os sofrimentos na terra são a consequência do pecado, por isso ao aceitarmos Jesus temos esperança não de uma terra perfeita, mas de um Deus perfeito que nos resgata de nós mesmo… Podemos aprofundar nisso outro dia, manda uma mensagem que eu vejo!!
2 – Precisamos entender que passamos por essas dores com um fim.
Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Romanos 8:28
Qual é esse bem? Simples, a salvação, o maior bem que Deus tem para nós é a salvação, entenda que a dificuldade, a bonança, alegria ou tristeza, tudo isso coopera para que alcancemos a salvação.
Às vezes Deus nos livra imediatamente. Em outras, Ele nos conduz através da dificuldade e usa até esse caminho para nos formar e consequentemente sermos salvos. Dito isso seguimos.
O Salmo 91 não é um amuleto
Por isso precisamos tomar cuidado com a maneira como tratamos esse salmo.
Não há problema algum em deixar uma Bíblia aberta no Salmo 91.
Leia.
Memorize.
Ore.
Leia com sua família.
Volte ao texto quando estiver com medo.
O problema começa quando a confiança deixa de estar em Deus e passa para o ato de possuir, abrir ou repetir determinadas palavras.
Uma Bíblia aberta não funciona como objeto mágico.
O número 91 não possui poder.
A simples repetição de um versículo não obriga Deus a agir da maneira que queremos.
A própria tentação de Jesus deixa isso muito claro.
Satanás conseguiu citar o Salmo 91.
Conhecer suas palavras não é necessariamente confiar no Deus revelado por elas.
O salmista não diz:
“Tenho um salmo que me protege.”
Ele diz:
“Meu Deus, em quem confio.”
Essa diferença é fundamental.
O Salmo 91 e Cristo
A ligação mais direta entre o Salmo 91 e Jesus aparece justamente na tentação.
Mas existe algo naquele momento em que ajuda ainda mais a compreender o salmo.
A lógica apresentada por satanás era simples:
“Se você realmente é Filho de Deus, Ele não permitirá que você sofra.”
Jesus rejeita essa lógica, Ele não coloca o Pai à prova, pelo contrário Ele permanece obediente, e essa obediência, mais tarde, o levaria até a cruz.
O Filho perfeito sofreu.
Aquele que confiou perfeitamente no Pai conheceu angústia.
Se a fidelidade a Deus significasse necessariamente uma vida livre de sofrimento, teríamos dificuldade de explicar a própria vida de Cristo.
Mas a cruz não encerra a história.
Existe ressurreição.
O sofrimento não teve a palavra final, a morte não teve a palavra final.
E isso amplia nossa compreensão de segurança.
Nossa esperança não é simplesmente que nada doloroso jamais aconteça.
Nossa esperança é que nada poderá finalmente arrancar das mãos de Deus aquele que pertence a Cristo.
Não consigo falar isso para vocês e deixar de citar um versículo que para mim traduz esse amor:
“Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.” Romanos 8:38-39
O que o Salmo 91 nos ensina sobre proteção?
Depois de percorrer o salmo, eu não consigo resumir sua mensagem apenas como:
“Deus não deixará nada ruim acontecer comigo.”
O texto é mais profundo do que isso.
Ele nos apresenta um Deus que realmente protege, livra e governa.
Mas também nos apresenta um Deus que diz:
“Estarei com ele na angústia.”
A segurança do salmista não vem de conhecer antecipadamente tudo o que acontecerá.
Vem de conhecer aquele em quem colocou sua confiança.
Por isso o salmo começa com:
“Meu Deus, em quem confio.”
E termina com o próprio Deus respondendo.
A proteção que encontramos no Salmo 91 não é um convite para negarmos a realidade do sofrimento.
É um ensinamento a NÃO procurar segurança nas coisas passageiras da vida.
Mas a confiar em Deus!
Quando há livramento, Ele continua sendo Deus.
E quando não há, Ele ainda continua sendo Deus.
Quando há espera, Ele continua sendo Deus.
Mas quando responde, Ele ainda continua sendo Deus.
Quando existe uma noite difícil, Ele continua sendo Deus.
Ao amanhecer e Ele renovar sua esperança, Ele continua sendo Deus.
E quando existe angústia, Ele não deixou de estar presente.
Essa é uma confiança que não depende de conseguirmos controlar o amanhã.
Depende do caráter daquele que estará lá quando ele chegar.
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Que Cristo seja formado em nós.
Escrito por Victor Moraes Bio
